segunda-feira, 21 de setembro de 2009

08 - Altas ondas

- Demoraram! - Exclamou Dimitri
- Culpa dele! - Dedurou-me Manu, fazendo um biquinho no final, deixando Dimi e Lisa a gargalhar. Eu encarei seu rostinho delicado, toquei sua face e lhe dei um sorriso.
- Bom... Vamos cair na água? Só estava esperando alguém pra me fazer companhia, já que ganhar da Line é meio sem graça! - Disse Dimitri
- Falou o super surfista né Dimi?!?! - Perguntei cheio de deboche
- Claro!
- Trouxe o Bodyboard Lisa? - Perguntou Manu.
- Acha que eu ia esquecer? Quero arrevanche, já que pedi da ultima vez!
Nos encaminhamos para a praia. Cada um com sua prancha, cada um com seu estilo, cada um com seu amor. Cumprimentamos Carlos e Manuel rapidamente. A disputa entre eles estava acirrada.
Caímos na água de vez. Não resisti á tentação de dar um leve caldo em Manu. Como a prancha já estava presa no meu pé, soltei-a na água e abracei Manu. Joguei meu peso contra a água e mergulhamos juntos. Uma onda passou por cima de nós e arrastou minha prancha. Ela puchou levemente meu pé e resolvi que era hora de levantar. Manu retomou o fôlego rapidamente, enquanto limpava os olhos e tirava o cabelo do rosto.
- Seu besta, idiota... - Ela esmurrava (ou melhor, tentava esmurrar) meu peito enquanto me "elogiava". Resolvi que era hora de um tratamento de choque e então, lhe segurei firme, mas dessa vez não lhe joguei na água e sim calei sua boca num beijo.
Ela tentou lutar contra meus lábios, mas terminou se rendendo e transformando murros em carícias que deslizavam agradavelmente por minhas costas nuas.
- Tá amarelando é Miguel?!?! - Por que sempre alguém tinha que atrapalhar na melhor parte?!?!
- Já estou indo! - Virei-me para Manu e lhe pedi um beijo de boa sorte. Ela atendeu meu pedido, e, com um grande esforço, me desprendi dos seus braços. Peguei minha prancha, encostei contra o peito e me joguei na água. Remei até Dimitri que me esperava em um remanso, sentado em sua prancha, fazendo caras de repulsa.
- Há, até parece que você não é assim! - Disse assim que o atingi sentando na prancha também.
- Assim tão... TÃO eu não sou não!
- Realmente... Você é pior!
Rimos juntos e ele me jogou uma rajada d'água.
- Bom, vamos começar! Primeira onda é minha! - Disse Dimitri
- Como preferir!
Ele aguardou um pouco, encarou o mar... Parecia um caçador... UM JOALHEIRO! Encarando minunciosamente cada pedra... cada detalhe... descartando qualquer defeito, até os mais imperceptíveis aos meus míseros olhos que já estavam impacientes. Até que ele fez pose, se preparou, virou, remou e se ergueu! Cortou a onda perfeitamente brilhante! Ele era rápido, direto, certeiro nos milimétricos movimentos. Senti um pouco de inveja, não vou mentir, mas também não era justo competir com alguém que já surfava desde os 10 anos de idade, enquanto eu, surfava desde os 15!
A onda não durou muito, mas durou o suficiente para que Carlos e Manuel parassem o jogo para olhar; fez com que Lisa se levantasse de onde ela estava sentada com Manu e vibrasse; fez com que Line interrompesse uma manobra para olhar; fez com que os olhos de Manu brilhassem. Brilharam de um jeito que com certeza não brilhavam quando era eu quem estava surfando. Senti uma ponta de inveja percorrer meu corpo de uma maneira que nunca acontecia. Uma raiva, de não ser o melhor, de não fazer minha namorada se orgulhar de mim, de não fazê-la se levantar para me ver fazer manobras. Imediatamente, remei a favor da primeira onda que se formou em minha frente. Óbvio que nada saiu certo. Não consegui subir na onda e acabei levando um belo caldo.
O caldo me fez bem.. Ficar debaixo d'água lavou minha alma de um jeito que eu realmente precisava. Subi tranquilo, de alma lavada, acordado e... triste. Ainda triste.
Ao me apoiar em minha prancha, vi que Dimi estava perto de mim, prestes a me "salvar".
- O que aconteceu cara?!?!
Nada respondi. Apenas olhei pra praia e vi que nem Carlos nem Manuel interromperam o jogo para me ver. Lisa já estava deitada na areia, tomando sol. Manu, estava de pé, me procurando, pensando que me afoguei. Que ótimo!
Voltei para o mesmo remanso que estávamos. Dimitri se aproximou.
- O que aconteceu cara?!?! Que queda foi essa?!?! Nem parece o mesmo Miguel que eu conheci surfando livremente!
- Não é nada! - Respondi emburrado.
- Ah claro! E meu nome é Alice Prado! - Desenrola logo o que está te perturbando!
Ele se aproximou, e encostou nossas pranchas.
- Eu não vou perguntar de novo!
Olhei um pouco o céu, totalmente azul, com poucas nuvens e um sol brilhante. Soltei um riso travado, daqueles que a gente solta sem vontade.
- Talvez seja besteira, criancice minha... - Talvez?!?! eu tinha certeza que era, mas não podia evitar. Voltei a rir sem vontade - Eu só queria ser melhor, só um pouco melhor, para fazer uma competição mais justa!
Dimitri me olhou firme, com os olhos semi-cerrados. Depois, seus olhos foram crescendo e ele me encarou, numa expressão de incredulidade.
- Eu não acredito que você está assim porque não consegue ser... MELHOR DO QUE EU?!?!?!
- NÃO! - Exclamei - Eu estou assim por não conseguir ser bom o bastante pra te enfrentar!
Ele me encarou com a mesma expressão. Depois, eu não entendi nada! Só sabia que estava debaixo d'água, com alguma coisa muito forte me empurrando. Quando a força cessou, voltei a superfície para respirar.
- Bata milhões de vezes nessa sua boca antes de falar uma merda dessas! Você está com ciúmes?!?! Que ridículo! Miguel, se não existisse o desafio, a vida seria um tédio! Você acha que eu gosto de competir sabendo que sou o melhor!?!? Mas eu só disputo isso com você porque achei que você fosse dedicado o bastante para poder se esforçar para SER o melhor! Você acha o que?!?! Que eu sai da barriga da minha mãe surfando na placenta?!?! Eu ralei muito! Tomei quedas piores que a sua! Me afoguei mais de 5 vezes, mas estou aqui e aprendi muito com isso! Você deveria fazer o mesmo! E não olhar para o céu, pedindo que Deus lhê dê um choque divino e te faça surfar brilhantemente!
Agora eu estava mal. Em vez de olhar para o céu, fiquei encarando minha prancha. Uma dor amarga no meu peito. E a vergonha corroendo minha face. Como eu tinha sido tão idiota! Tão burro! O Dimi estava certo! Sempre esteve certo! O tempo todo o bobo fui eu!
- Miguel... - Falou Dimi, agora com uma voz mais suave. - Na vida ninguém é perfeito! Você acha que eu sou o bam bam bam né?!?! - Agora ele que ria sem vontade, um riso sem graça - Você não sabe o que diz! Não sabe o que é ter 90% de amigos que querem se aproveitar de mim porque eu sou rico! Não sabe o que é ver seu aniversário chegar e ver aquele mundo de gente te tratando como um Deus só para ter lugar na festa. Você acha isso realmente legal?!?! Sabe que daqui a pouco eu vou ter que ir embora porque meu pai me obriga a ir em encontros com ele para que os seus amigos conheçam a nova geração de engenheiro civil da família Souza! Acha que eu gosto?!?! Que eu realmente gostaria de ir pra lá, ao invés de estar aqui com vocês?!?!
Agora ele estava mal e estava me fazendo sentir pior ainda. Eu estraguei a nossa manhã perfeita! Que ótimo! Aliás, o que eu estava fazendo?!?! Eu deixei o Dimi mal! Fiz ele falar coisas que ele nunca tinha dito! Isso tinha que acabar. Imediatamente me projetei contra ele, arremessando nossos corpos na água. Usei toda minha força para empurra-lo para baixo e ai, não sei como, ele conseguiu me levar pra baixo d'água. Começamos a embolar na água, não como briga, mas como brincadeira, como alívio! Foi o jeito que encontramos para afogar, literalmente, nossas mágoas. Quando retornamos à superfície, estávamos sem fôlego, mas ríamos, como nunca rimos antes.
- Obrigado Dimi! - Foi a atitude mais sensata, mais sincera e mais bonita que já tomei na minha vida, com toda a certeza. Dimi, meu grande irmão, me surpreendeu novamente. Mas dessa vez eu não tenho mais ciúmes nem mágoas. Tenho admiração, respeito e a certeza de que irei me esforçar muito pra um dia chegar ao patamar dele, meu irmão de coração!
- Vai mais uma rodada?!?! - Perguntou Dimi, interrompendo meus pensamentos
O encarei por um segundo e olhei o mar. Uma onda vinha se formando e eu disse por fim:
- Só se for agora! - Mal terminei de falar e me lancei para a onda!
Não iria deixar mais nada passar a diante dos meus olhos e chorar o leite derramado depois. Ia aproveitar tudo, TUDO o que pudesse.

sábado, 19 de setembro de 2009

07 - Manhã de Sol

- Miguel?!?! Alô... Miguel?!? Você está acordado??
A voz doce e fofa da minha namorada soava no meu celular às seis horas da manhã. Tinha virado mania me acordar cedo agora?!?!
- Oi. - Foi o máximo que consegui dizer.
- Credo mô! Sua voz está péssima!
- O que aconteceu hein? - Eu realmente estava com sono e esperava um bom motivo para ser acordado.
- A turma está indo na praia surfar e disseram que o horário vai estar bom daqui a meia hora...
Comecei a me animar. Fazia tempo que não surfava nem relaxava! Toda tensão antes do resultado tinha me tirado toda a animação e estava mais do que na hora de dar uma estravazada.
- Tudo bem, eu estou dentro. Quem vai?
- Todo mundo ué!
- E já estão todos prontos?!?
- Prontos eu não sei, mas acordados eles estão.
- E como a gente vai e para onde vamos?
- Bom... Dimi vai levar Lisa e Line; Manuel vai com Carlos e você vai comigo! Nós vamos para Stella mares.
- Nem me dá chance de arranjar uma desculpa!
- Há, há espertinho!
- Estava brincando! Bom, então vou me arrumar.
- Meu pai sai daqui a 15 minutos, então devemos chegar ai em 20. Te ligo quando estiver perto.
- Está bem mô!
- Beijos!
- Beijos!
Desliguei o telefone e fui acordar. Levantar cedo nunca foi meu forte, mas, assim que olhei minha prancha esquecida atrás da porta, me levantei. Cheguei perto dela. Era como se ela me chamasse. Como se um ímã estivesse nos chamando, nos ligando, como em épocas passadas, onde éramos eu, ela e o mar. Quando a liberdade tomava conta de mim e eu saia de casa para pensar. Só eu e ela, no tempo. Era de manhã, de tarde, de noite, não importava! Quando eu precisava, não existiam limites para entrar no mar. Esse era meu templo de reflexão. E agora, depois de tanto tempo abandonado, seriamos novamente nós dois. Fui no guarda roupa pegar meu trage. Me vesti rápido e comi apenas frutas: uma fatia de melancia e uma banana. Deixei um bilhete para meus pais que ainda dormiam e não mereciam ser acordados.
Manu havia acabado de chegar. Edson, seu pai, me cumprimentou e me ajudou a amarrar a prancha no carro. Manu estava na janela do carro, projetando seu rosto para fora, esperando um beijo. Não lhe ignorei por muito tempo, mas tive que ser sucinto, pois seu pai estava lá.
Tive que dividir o banco de trás com a prancha de bodyboard e o pé de pato de Manu, e ir segurando sua mão pelo cantinho do banco, enquanto ela fazia caras e bocas pelo retrovisor, exibindo seus novos óculos escuros.
Chegamos em pouco tempo à praia. Dimi e Lisa estavam numa barraquinha de coco nos esperando. Pude avistar um pontinho rosa cortando as águas e tive certeza que line não conseguiu nos esperar. Manuel e Carlos jogavam frescobol na areia.
- Todo mundo está aqui! - Exclamei.
- Vamos aproveitar então! - Manu me respondeu.
- Antes deixa eu fazer uma coisa?!?! - Perguntei usando todo meu charme e levantando uma sombrancelha, como Manu adorava. Sorte minha seu pai não estar mais lá.
- O que?
Peguei nossas pranchas e encostei num coqueiro. Lhe dei um puxão e fiz seu corpo se encaixar no meu. Lhe dei um beijo... O beijo que queria lhe dar quando a vi... O beijo que lhe daria eternamente... O nosso beijo! Quando terminamos, fomos enfim, falar com o pessoal. Esse seria mais um grande dia!

domingo, 6 de setembro de 2009

06 - Linda Noite

A competição estava acirrada. As meninas já tinham desistido de comer quando nós (os garotos) começamos a jogar sério. Elas não chegaram nem na décima!
- Ai gente, eu vou passar mau essa noite! - Disse Lisa enquanto alisava sua barriga levemente estufada.
- Somos duas! - Disse Manu.
- Eu não! Acho que vou comer mais uma ou duas! - Disse Aline.
As duas se viraram perplexas para ela.
- Brincadeira gente! Também estou muito estufada! Mas em compensação, ganhei de vocês! - Line esbanjava um largo sorriso.
- Lisa... - Disse manu, parando para tomar um gole de coca cola. - Me lembre de nunca chamar esse animalzinho pra comer lá em casa!
- Fechado!
- Ai gente! Maguou!
Elas riram juntas e pararam para nos olhar. Suas caras eram as melhores! Pareciam que estavam vendo umas bestas. E talvez estivessem. Enquanto eu reparava nas meninas, não perdia o foco da competição. Estávamos praticamente empatados em 15 fatias. Manuel já estava muito cheio e assim que terminou a 17ª fatia, jogou a toalha. Carlos foi o segundo, acabando na 18ª. Eu encarei Dimitri, que parecia tranquilo. Eu, particularmente já estava cheio, quase no limite. Quase! Nós trocávamos olhares, olhávamos as pizzas uns dos outros, enquanto nossas namoradas nos apoiavam e os amigos se dividiam, ora torcendo pra um, ora pro outro. Um garçom trouxe pizza de palmito. Eu não era muito fã e Dimitri pegou logo duas. O segredo das pizzas num rodízio é não parar de comer. Eu peguei apenas uma fatia de calabresa. Depois que a devorei, demorou de passar uma pizza do meu gosto e ai...
- Eu desisto - Disse por fim
- Tão cedo amigo? - Falou Dimitri
- Não se pode ganhar todas...
- Pois é!
E terminou assim. No feminino, minha namorada ficou em última com 6 fatias. Lisa terminou com 7 e Aline, para surpresa de todos, com 9. No masculino, Manuel terminou com 17, Carlos com 18, eu com 20 e Dimitri com 21.
Nos entupimos de coca para ajudar a desgastar. Eram pouco mais que meia noite quando saímos da pizzaria. Ficamos no estacionamento, encostados no carro dos meninos (Carlos e Manuel). De um lado do carro, Dimitri e Lisa trocavam carícias e do outro, eu e Manu aproveitávamos também. Line abraçava Carlos e Manuel, como se os consolasse.
- Bom gente, nós já vamos. - Disse Dimitri.
- Vão??? - Perguntamos todos praticamente ao mesmo.
- Eu guardei uma lembrancinha pra vocês! - Ele esbanjava um grande sorriso
- Ele foi até um ponto mais distante do estacionamento. Foi para o lado direito de um carro e lá de trás, acendeu-se uma luz, seguido de um ronco potente. Por fim, apareceu ele numa moto guzzi griso 8v.
- Meus pais já tinham comprado a alguns meses e já tinham me pago um curso de condutor. Eu fiz o curso mas eles ficaram com a minha carteira e só me entregariam se eu passasse. E eu passei!
- Dale Dimi! - Falou Manuel
- Esse é um meu garoto! - Disse Lisa lhe beijando
Ele pegou um dos capacetes e lhe entregou.
- Você é o orgulho do nosso grupo! - Disse Manu
- Você broca cara! - Eu disse.
- Hey, e minha caranga hein? - Perguntou Carlos fingindo estar ofendido
Todos rimos ao mesmo tempo.
- Bom turma, hora de ir.
Lisa pongou na garupa e Dimitri, depois de colocar o capacete, partiu.
- Vamos nus porém vestidos pessoal? - Sugeriu Manuel
- Só se for agora! - Respondeu Manu, com os olhos sonolentos, repousando em meus braços.
Entramos no carro e um por um fomos saindo. Primeiro Line, depois Manu, e por fim, eu.
- Tchau, Tchau caras!
- Se cuida Miguel! - Disse Carlos
- Boa noite cara! - Acenou Manuel
Vi o carro sumir na noite. Subi para casa pensativo. Como podiam existir pessoas assim! Amigos presentes! Amigos ricos como Dimitri, mas sem nunca perder a humildade. Amigos batalhadores como Carlos e Manuel, mas sempre felizes e de cabeça erguida. Amigos brincalhões como Line, mas sempre disposta para ajudar, uma amiga para todas as horas. Amigos tímidos como Lisa, mas sempre pronta para defender os amigos. Amigos além de tudo que possa existir. Amiga, namorada, mulher, meu tudo, minha vida, minha Manu. Parei antes de abrir a porta de casa, apenas para agradecer a Deus por tudo o que ele me deu. Eu tenho tudo na vida, tudo o que preciso e que necessito. Família e amigos, para que mais?
- Obrigado - Disse num sussurro.
- Entrei em casa, escovei os dentes e fui dormir.
Essa foi uma linda noite, uma noite que nunca me esquecerei. Uma noite que contarei para os meus netos.